8/27/2009 08:28:00 AM
Pê Sousa
Por Deus!, não estou plagiando a idéia do meu amigo Gutor, do blog FLORES MORTAS. Lá ele discorreu sobre um "disco perdido". Na verdade, trata-se do disco It's Cool, de Walter Jackson, uma coletânia de canções tão lúgubres quanto minhas lembranças. Por Deus!, isto não é plágio!
Mas não posso resistir ao desejo de falar sobre os dias musicais que vivíamos na velha casa dos meus idílios. Descobri esse CD perdido no meio de jornais velhos e revistas de números atrasados da banca do seu Pacheco. Confesso que no primeiro instante não me interessou muito, mas diante da minha natural curiosidade por música resolvi levá-lo.
Ainda no ônibus, conferi as faixas, canções desconhecidas para mim, ainda um iniciante da música soul. Então, ouvindo cada música no aparelinho toca-CD que tínhamos a epifania aconteceu. WJ (era assim que carinhosamente o chamávamos, eu e Alberto)na sua voz de barítono nos deixava embevecidos, uma aura de solidão pairava as noites regadas pelo café fumegante que nos aquecia e as páginas de Kafka que devotávamos. Ficávamos assim, mudos, compenetrados por sua sonoridade etérea sentindo o real espasmo de nossas emoções serem amortecidas pela presença latente de nossa dor...
WJ acabou por nos ensinar a olhar a vida através da alma. A desistir de entender nossa ambiciosa vontade de saber tudo, de querer tudo, mas apenas ser... isso, apenas ser aquilo que queremos. WJ era paralítico, mal conseguindo se manter em pé por muito tempo(fazia isso com o auxílio de muletas), mas nem essa aparente deficiência o impediu de ser o que foi: homem devotado por seu sonho de cantar, não por mera especulação financeira. Mas cantar com o que tinha de melhor, sua alma sensível, envolta pela beleza que emergia de seus idílios mais profundos. E, acima de tudo, a perda daquele disco causou um grande hiato nas minhas lembranças.
Acredito que Alberto sinta o mesmo.
CONTINUA...
8/19/2009 09:31:00 AM
Pê Sousa

Não era necessariamente a falta de alguém que a angustiava. Mas um quê de saudade de quando ele chegava. Sempre dava um jeito de aparecer assim, meio que de repente, sem avisar. Sempre trazia alguma coisa nas mãos, às vezes uma flor escarlate, às vezes um novo poema seu para ela. E sempre com aquele sorriso largo, o rosto barbado e olhos enigmáticos e sedutores.
Sabia que os próximos dias seriam mais que especiais, tão diferentes do marasmo diário que curtia. Não! Todas as manhãs ela seria arrebatada por aqueles braços fortes num abraço de bom dia. E ficaria impressionada pelo café-da-manhã caprichado que ele preparara para a princesa de seu conto de fadas. Era assim que ele sempre se referia a ela: princesa do meu conto de fadas. Ela ria para si, lisonjeada com a maneira como era amada, assim, tão intensamente. Às vezes ficava olhando-o dormindo, o peito largo subindo e descendo sob o lençol perfumado. Aquela atitude meio maternal aumentava o anseio de viver assim para sempre, ao lado do seu querido.
Mas em poucos dias ele teria que partir novamente. Ela não teria braços fortes de bom dia, nem café pronto para o seu despertar. Por isso não se preocuparia em se arrumar, pentear os cabelos castanhos ou sequer pôr uma roupa mais arrumada. Seus dias cairiam num tédio terrível, e seu olhar se perderia até o fim da rua, onde costumava vê-lo aparecer de repente, o andar decidido, seu sorriso como luz irradiando a vasta noite, suas mãos cheias de carinho e promessas...
8/08/2009 02:04:00 PM
Pê Sousa

Posso me ver perfeitamente, jovem cheio de sonhos, espírito carregado pela vontade de buscar seus horizontes próprios, suas próprias oportunidades. Jovem amante de todas as noites, de todos os mistérios, ainda que levasse em seu semblante um pouco da arraigada tristeza e solidão que lhe eram próprias de uma vida de quase-escritor.
Jovem emotivo sem, contudo, deixar transparecer sua sensibilidade, preferindo, ao invés, levar sua vida meio que na evasiva, apenas um coadjuvante, primoroso na arte dos reveses que a vida foi-lhe dando. Sincero admirador da noite e suas nuances, olhos ansiosos por um amor que nunca vinha; noites solitárias que passaram ao doce embalo das suas canções preferidas...
Seu sorriso contido por uma pequena falha ainda assim cativou alguns corações, ele mesmo estupefato e incrédulo de que pudesse causar aquela estranheza típica dos que anseiam o beijo do amado, sob o afago das tardes serenas. Sim...
Por longas tardes, na velha casa, espremido entre as idéias geniais dos seus autores preferidos, assim ia cosendo sua parca colcha de pensamentos próprios, talvez até pudessem ser escritos, transformados em matéria, palpável, no papel branco que desafiava sua incerteza na aventura literária que um dia se dispôs. Ainda que fossem outras as tardes que ansiava para sempre viver, uma aqui, outra ali, fria, e que ficara registrada como uma pérola na sua mente.
Garoto indesistível, sempre crente que o seu dia chegaria: não seriam em vão todas aquelas páginas lidas e relidas, tantos anos de conhecimento sendo sorvidos aos bocados naquelas tardes mágicas e transformadoras. E assim nascera sua poesia própria, não uma imagem qualquer, mas o resultado de sua dor própria, de sua necessidade de ser esperado em casa, certamente envolta em profumo di Donna.
Ainda assim, chorou terrivelmente, cansado das feridas causadas pela sua indecisão, pelo receio do desprezo. Preferia, por isso, a vaguidão da noite, o silêncio protetor das páginas que lia e ora escrevia, a contemplação do ser amado, ainda que em sonhos. Mas quando tudo isso acabaria?
O sentido da perdição... embora estivesse com os sentidos todos bem alertas.
Toda essa contemplação causara-me uma emoção diferente, ao olhar o passado, os meus passos, meus tropeços, e, bem no fundo, o sentimento de que ISTO é a vida! Cada passo, cada projeto, envolto de simplicidade, como o vento que sopra rumo ao horizonte distante...
Uma pura satisfação de que a vida estava presente em mim! E não era necessário grandes espetáculos, mas apenas a silenciosa certeza de que tudo isso valia a pena. O descanso tranqüilo sob a sombra das castanholeiras; as gargalhadas frenéticas na roda dos amigos queridos; uma singela canção que nasça numa noite qualquer, sem planejamento; o sorriso da amada, grata pelo simples fato de sentir-se amada; as novas manhãs acompanhadas por um assomo de esperança; uma caminhada rumo a lugar algum, numa manhã nublada e fria; a contemplação de noites vagas e distantes, os pontos luminosos no imenso tapete negro, verdadeiro mapa astral de jornadas estelares e misteriosas...
E resta, acima de tudo, o frescor da saudade que bate à porta...
8/08/2009 02:04:00 PM
Pê Sousa

O café está um tanto amargo. Mas duvido que esteja assim mais do que eu mesmo, com minhas dores e desilusões. O horizonte não consegue dissipar a estranha sensação de fim que eu sinto. Um dia e mais nada...
Praticamente todos se foram. Mas uma sombra me persegue com insistente determinação. Novamente o legado do passado procura o acerto de contas deveras definitivo. Mas renuncio a qualquer trato. Seria o mesmo que dizer "não" a mim mesmo, ao tudo e nada que sou. Por isso corri para o banheiro, o espelho amarelo está lá para atestar que tenho razão! A imagem sinistra que vejo parece querer dizer algo, mas sua boca não se move, voz alguma se faz ouvir... Eu...
Se fosse possível renunciaria a tudo isso. Quem sabe uma súbita coragem pudesse dar-me força nessa hora negra. Mas compreendia que era inútil: esta é a prisão que eu escolhi, talvez a pior, de mim mesmo.
Uma densa camada de solidão toma a casa. Seria bom se Alberto pudesse vir, quem sabe tocar algumas de suas músicas, talvez mesmo aquela que tem a nossa cara. Isso! Seria bom mesmo, um pouco de vinho barato, conversa tola e algumas páginas de Kafka...
A xícara está inerte, esquecida sobre a mesa; o café já esfriou. Melhor botar um pouco mais. Preciso me aquecer. Precisar lembrar antes que eu me perca de mim mesmo, do meu passado.
8/08/2009 02:03:00 PM
Pê Sousa

A noite lá fora está calma e serena. Somente dentro de mim jaz um turbilhão de emoções que me conduzem de regresso ao que fui antes. Algo me atrai à velha casa, a dos meus idílios. Uma súbita saudade desponta, subindo pela garganta e inundando minha solidão. As paredes nuas, sem adereços; o cheiro da nova manhã escorrendo pela janela; o café com waffer sorvido todas as noites na roda de amigos; as canções que construiram nossa identidade; as noites chuvosas sob a luz da vela luciluzente, onde, ao redor, eram contadas histórias de outros tempos; os amores que vieram e partiram como uma estação...
Tudo se foi, aquele tempo ruiu, desprendeu-se da realidade que teimo em reviver. E essa teimosia se deve ao legado que aquela casa deixou entranhado em mim. Legado de dor, saudade e consternação.
Outros lares também foram o meu passado. Mas eu não sentia saudade. Apenas receio de ser esquecido. Por isso ficava à janela, espreitando o dia se findando e a noite começando a nascer...
E então me punha a contemplar a noite, vasta e pontilhada de luz. E na minha imaginação-de-menino especulava qual seria o tamanho do céu na sua imensidão preta e infinita. E naquele instante podia ouvir os conselhos preocupados e supersticiosos da mãe admoestando o guri para que não chamasse o céu de preto, mas "escuro"...
Assim o guri se tornou um sonhador. Dentro de si nascia um mundo novo, uma nova perspectiva, uma forma diferente de viver a realidade. Dali nasceria a obsessão pela palavra ideal, que pudesse descrever este mundo. Mas ele precisaria de uma ponte, um caminho que o levasse a este lugar mágico onde se completaria. O menino sonhador...
De alguma forma os sonhos foram destruídos, esmigalhados e então todos partiram. Aconteceu o que sempre temera: esqueceram-se de buscá-lo. E se viu só.
Nunca mais construiu suas casinhas de areia molhada. A pipa que coloria suas tardes ficou esquecida num canto, talvez rasgada. A janela por onde via a vida e as pessoas passarem se tornou motivo de consternação: noites vazias e geladas seriam contempladas por muitas outras janelas da vida. E então veio a casa.
Talvez uma centelha daquele mundo tenha sobrado. Era possível sentir o cheiro latente da manhã renovada. Logo enchida por sons conhecidos e amigos, mas afinal...
A casa acabou se perdendo também. Como o guri. Como tudo. Como eu.
8/08/2009 02:01:00 PM
Pê Sousa

Tem chovido muito nesses dias. Guarda-chuvas sobem e descem as ruas enlameadas numa profusão de estampas e tamanhos. E então penso em como atribuí ao inverno a dor e a perda; em como nasceu o meu inverno, que é só dor e saudade.
Passos apressados desviam-se das poças escuras, todos têm pressa de chegar, mas eu não. Satisfaço-me assim mesmo, parado, contemplando a noite molhada, os pingos frios da chuva que banham minha solidão. Inverno assim me trouxe a certeza da perda, e nunca mais...
Poderia desconfiar que toda essa dor é mais antiga lembrança do inverno sentimental que purguei. Mas vem de mais longe, eu sei, de tempos meninos, quando o guri alegre e dinâmico teve sua infância destruída pela partida iminente. Riso e alegria transformados em dor, choro e revolta.
Concentro meus pensamentos naquele guri. Para ele os dias eram como eternos momentos de diversão; passava as horas depois da escola construindo casinhas de areia molhada, trepando em mangueiras ou soltando pipas pelo céu em tardes por elas coloridas. Na infância percebia os sonhos distantes dividindo o céu e as nuvens. Hoje as cores estão à altura dos olhos, borradas pelo tom desbotado dos guarda-chuvas...
Quanto tempo se passara desde aqueles dias coloridos e felizes? Quando, em verdade sua realidade se tornara cinza e fria como a chuva que agora cai?...
Esses pensamentos trazem ao ínterim uma vontade de chorar. Como seria chorar debaixo de chuva? Faria alguma diferença? A alma sente as cores vivas e vibrantes do passado menino; mas os olhos, esses só enxergam a água escura das poças que ficam maiores e ameaçam tragar os sapatos encharcados...
8/08/2009 02:00:00 PM
Pê Sousa

Infidáveis caminhos apareceram logo adiante. O carro ia rápido e me levava para qualquer lugar. Mas esta noite chuvosa não era para carros ou rapidez: era para ser curtida, sentida ao máximo extremo. Por isso desci, era melhor caminhar, sentir o ar pesado e frio entrar em minhas entranhas.
Não tinha destino certo, qualquer lugar era melhor que a casa vazia que me esperava. A chuva espessa molhou rapidamente os meus pés, logo estava com os sapatos encharcados, mas eu nada sentia. Só a solidão da noite absorvia minha atenção agora.
Então me pus a pensar na imensidão do mistério que me rodeava. O que era eu? Quem eu era? Por que o passado ficou e eu não? E esta noite, meu Deus, por que me cobra um legado que nem me pertence? A verdade é que não quero nada disso. Abri mão há muito tempo de tudo o que sou, de todos que me eram, do sempre que serei. A vidraça ao meu lado reflete minha imagem. Como me tornei um homem sombrio? Na verdade sou mais sombrio que minha própria sombra, um espectro vagando sofregamente pelas ruas vazias e enlamaçadas.
A imensidão me dá tempo para olhar em volta, contemplar tão magnífica existência, e me lamentar por tamanha pequenez que é minha própria vida. Há infindáveis caminhos, então por onde seguir? Há tantos muros, não existiriam ali melhores caminhos a seguir?.
O ar fica mais pesado. A calma é recobrada. Meus passos ficam mais lentos, indecisos. Não será melhor voltar pra casa? Talvez se voltar a pé, assim posso me embrenhar mais ainda na embriaguez onírica de meus pensamentos. Decido voltar. Já não é possível estar desgarrado do lar. Um dia todos têm que voltar. Até mesmo os fantasmas. Quem sabe a velha casa, todos meus amigos, a bebida, a música, os debates sobre o nada, tudo isso volte também? Eu não sei. Há muito deixei de saber. E de mim? Será que um dia soube algo sobre mim mesmo? Hum, não sei. Ou será que sei e não quero admitir? Ou tenho medo de admitir?
Muros imensos rodeiam a rua. Casas se escondem em meio às barreiras de cimento e tijolos. Vidas se desvinculam das outras, é cada um por si. E então penso no tamanho do muro que tenho construído ao meu redor. Verdadeira fortaleza de dores e angústias, é lá onde me refugio, me renego, me castigo. E a imensidão da noite chuvosa, noite materna, noite sublime, fecundo terreno onde renascem as lembranças mais ternas e queridas...